“Velha fantasia deste colunista – e digo fantasia porque continua dormindo no porão da irrealidade – é a criação de um museu de literatura. Temos museus de arte, história, ciências naturais, carpologia, caça e pesca, anatomia, patologia, imprensa, folclore, teatro, imagem e som, moedas, armas, índio, república… de literatura não temos […]. Mas falta o órgão especializado, o museu vivo que preserve a tradição escrita brasileira, constante não só de papéis como de objetos relacionados com a criação e a vida dos escritores. É incalculável o que se perdeu, o que se perde por falta de tal órgão. Será que a ficção, a poesia e o ensaio de nossos escritores não merecem possuí-lo? O museu de letras, que recolhesse espécimes mais significativas, prestaria um bom serviço.”

O trecho acima é parte de uma crônica escrita pelo mestre Carlos Drummond de Andrade chamada “Museu: Fantasia?”, em 11 julho de 1972, no Jornal do Brasil. O poeta de Itabira fazia um apelo público pela criação de um espaço destinado a reunir, organizar e preservar os arquivos e objetos pessoais relevantes para a criação destes autores. Meses depois, sob a organização de Plínio Doyle, então diretor da Casa de Rui Barbosa, a instituição inaugurou o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, hoje responsável pelo arquivo privado de centenas de escritores brasileiros, inclusive o do próprio Drummond, que, entusiasmado com a iniciativa, empregava pessoalmente esforços para convencer seus amigos escritores a enriquecer o AMLB. O arquivo é aberto ao público e fonte de valor literário inestimável.


O mais incrível é que o que seria uma função de peso para qualquer instituição é apenas uma das funções da Casa de Rui Barbosa, originalmente residência do jurista, político, diplomata, intelectual e orador de mesmo nome, e inaugurada em 1928 pelo presidente Washington Luís. Como seu antigo dono e homenageado, a instituição também é polivalente: promove atividades de preservação, divulgação e pesquisa nas áreas de museologia, arquitetura, urbanismo, arqueologia e educação, além promover cursos, oficinas e projetos culturais. 

Os moradores de Botafogo já estão acostumados com o contraste entre o intenso movimento da Rua São Clemente e a calmaria do vasto jardim da casa rosada, situada no número 134. Alguns, mesmo sem planejar, acabam decidindo entrar, seja para descansar à sombra das diversas árvores, seja para conhecer as preciosidades históricas do local.

No entanto, o momento é de alerta. Desde 2019 corre — inicialmente em segredo de justiça — a análise de uma proposta de Medida Provisória que tem como objetivo extinguir o centro de pesquisas da instituição, transformando a entidade num museu vinculado à estrutura do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). A coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo de quinta-feira, dia 9 de julho revelou que o parecer do Ministério da Cidadania, então responsável pela estrutura do Ibram — agora subordinado ao Ministério do Turismo — deu parecer positivo para a proposta de redução da fundação a museu.

Parte do jardim da Casa de Rui Barbosa (Foto: Alexandre Macieira)

Especialistas afirmam que a instituição não conseguiria ser propriamente gerida pelo Ibram sem que diversas das suas funções corressem risco de extinção, já que a casa é um dos mais importantes polos de produção de conhecimento sobre políticas culturais do Brasil. Sobre a questão, o Fórum de Servidores da Cultura emitiu uma nota, aqui reproduzida na íntegra, em que se manifesta contrariamente ao parecer do Ministério da Cidadania:

O Fórum dos Servidores da Cultura é veementemente contrário à extinção da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) e sua transformação em Museu para integrar o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

A FCRB, instituição que completará 90 anos da sua abertura ao público no dia 13 de agosto, é uma estrutura complexa que conta em seu organograma com diversos setores agregados em dois centros finalísticos – Centro de Memória e Informação e o Centro de Pesquisa – e uma Coordenação de Administração. Suas funções extrapolam as ações de um museu, por isso mesmo foi transformada em 1966, pela Lei n° 4.943, em Fundação.

O Governo Federal, ao propor a extinção da FCRB, parece desconhecer as estruturas das entidades do Sistema Federal de Cultura.

Além do Museu Casa de Rui Barbosa, a Fundação conta atualmente com o Arquivo Museu de Literatura Brasileira, duas Cátedras UNESCO, incluindo um Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes, um Programa de Pós-Graduação, o Instituto Rui Barbosa de Altos Estudos em Cultura, e diversos outros setores cujas funções não estão associadas à natureza museológica, posto que compõem outros campos do conhecimento.

A diminuição da FCRB para se tornar apenas ‘Museu Casa de Rui Barbosa’ desconsidera toda complexidade e o trabalho das outras áreas inseridas na Fundação e, visa, mais uma vez, continuar com o projeto de devastação da Cultura e Memória nacional através de uma decisão autoritária e que não prioriza seu povo.”

Os servidores da Fundação Casa de Rui Barbosa lançaram abaixo-assinado em defesa da instituição que já passou da marca das 87.000 assinaturas até o momento. A nova meta é atingir 150.000 assinaturas para mostrar que a população do Rio — e do Brasil — valoriza o patrimônio público e reconhece a importância da Casa de Rui Barbosa.

Vamos assinar? Para ir ao site do abaixo-assinado, é só CLICAR AQUI.

Texto de Rodolfo Amaral, pesquisador e redator da Equipe Rio Antigo.



Obs.: Há uma polêmica antiga com relação à grafia do nome do nosso anfitrião polímata. A dúvida inclusive consta na sessão de perguntas frequentes do próprio site da fundação. Eles explicam: “segundo o Formulário Ortográfico da língua portuguesa em vigor, os nomes das pessoas falecidas devem respeitar a ortografia, assim como qualquer nome comum. Isto não impede que descendentes de uma personalidade usem a grafia antiga, por ser esta uma questão pessoal. Mas, em respeito às Instruções para a Organização do Vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa (12 de agosto de 1943) e à lei número 5.765/71, que aprova alterações da ortografia da língua portuguesa, a Fundação Casa de Rui Barbosa não apenas grafa com “i” o nome de seu patrono, como orienta todos que a consultam a fazer o mesmo.

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