O Brasil celebra hoje, dia 19 de abril, os seus povos originários. Já parou para pensar no quanto a ancestralidade indígena tem a contribuir para a nossa sociedade?

Segundo a mitologia dos índios tupinambás, os habitantes originais do lugar que hoje chamamos de Rio de Janeiro, havia um paraíso idílico a ser alcançado em vida. Era Guajupiá, uma terra sem males, para onde iriam aqueles que vivessem uma vida de respeito, valor e bravura. O equivalente tupinambá ao Paraíso dos cristãos, ao Olimpo dos gregos e à Valhalla dos nórdicos.

Esse foi o enredo que a tradicionalíssima Portela levou à Marquês de Sapucaí em 2020. De autoria dos carnavalescos Renato e Márcia Lage, o tema retratou a história dos índios que habitavam a cidade do Rio de Janeiro bem antes dos europeus, destacando a vida social, cultural, religiosa e política daqueles que são os primeiros “kariókas”.

Na sinopse do enredo portelense, uma excelente explicação sobre o mito de Guajupiá:

“Na beleza do azul sobre o azul, da calma sobre a calma, um curso d’água serpenteia num vale de árvores verdes e frondosas. Em todas as direções a floresta é vívida. Há que se fiar no Sol, a luz é cultivada e tudo deve ser puro.

O rio é o caminho, é sagrado, tem peixe, tem marisco. As aves voam livres, colorindo o céu. Temos tudo ao alcance das mãos, água de beber, de lavar e de se banhar. Vivemos a vida em profunda gratidão. 

Mas além de pescar e caçar, somos também bravos guerreiros. Só aqueles que enfrentam a morte, sem medo, conseguem encontrar o Guajupiá. Os tupinambás representavam esse paraíso como um lugar idílico, recoberto de flores e regado por um maravilhoso rio, em cujas margens viam-se enormes árvores.

Nenhum lugar poderia ser tão igual ao imaginado Guajupiá eterno do que um Rio de Janeiro ainda virgem.”

Mais de 2000 anos atrás, quando migravam, ao longo da costa, para o Sul, os tupinambás depararam-se com uma impressionante baía, cercadas de verdes morros e pinceladas por ilhas paradisíacas e colossos de pedra. 

Rios selvagens e plácidos que desaguavam nessa enorme massa d’água aguçavam a curiosidade: aonde iam? A quais tesouros os levariam? 

Pensaram ter alcançado Guajupiá. O paraíso idílico imaginado pelos tupinambás teria se materializado bem aqui na cidade que, milênios depois chamaríamos de maravilhosa. 

Na margem esquerda da baía, que chamaram de kûánãpará, construiriam a lendária aldeia tupinambá a que deram o nome de kariók. Segundo uma de muitas teorias que explicam a origem do nome “carioca” —, esse termo viria dos termos tupis kariîó (“índio carijó”) e oka (“casa”), significando “casa de índio carijó”.

Quando os europeus atravessaram o oceano, no início do século XVI, havia cerca de 80 aldeias indígenas no entorno da Baía de Guanabara. Assim como no restante do Brasil, elas foram dizimadas.

Hoje, a nossa Guajupiá em nada se assemelha com o éden encontrado pelos tupinambás. Poluição, caos urbano, desigualdade…e muita, muita guerra. Os poucos filhos ancestrais desta terra lutando por seus direitos mais básicos.

A fundação da cidade de São Sebastião pelos portugueses, que tanto celebramos todo Primeiro de Março, foi o calvário indígena. Após uma permanência milenar indígena, os povos que chegaram para fundar o Rio trouxeram o que veio a representar o fim do mundo fundado pelos tupinambás e o início de um novo mundo que incluía guerras, doenças e escravidão em uma escala até então desconhecida pelos indígenas.

Constituiu-se um paradoxo compreensível: os que não resistiram foram tão valorosos quanto aqueles que lutaram bravamente contra a colonização. E também os que fugiram, a fim de garantir a sobrevivência de suas tribos. À medida que expandia a presença europeia, mais se interiorizavam os nossos habitantes originais, encontrando na profundeza das matas, das serras e dos sertões a renovação da utopia que se chamava Guajupiá. 

Na sociedade colonial, os indígenas eram almas a serem salvas do paganismo, bárbaros a serem “civilizados”. Mas nem a determinação dos colonizadores, nem suas doenças e armas letais foram capazes de apagar a memória dos que primeiro chegaram às nossas praias.

No século XIX, quando foi preciso construir uma identidade nacional brasileira, o indígena foi retomado como modelo ideal, à semelhança de cavaleiros medievais. Nossa literatura e artes plásticas são repletas de exemplos dessa visão romantizada. 

O Último Tamoio – Rodolfo Amoedo (1883) – Museu Nacional de Belas Artes

Hoje, percebemos que a visão de mundo dos povos originários embora também contivesse sonhos e idealismo, tem vantagens muito reais, como a relação harmoniosa com a natureza e a liderança tribal, dois conceitos hoje muito valorizados.

Ao longo dos séculos, a matança de indígenas continuou, mesmo em pleno século XX. E não parou ainda. Temos hoje pouco mais de 800 mil indígenas vivendo em reservas e aldeias, dentro e fora de reservas pelo país.

No estado do Rio de Janeiro há também núcleos de população original, conforme texto oficial do Museu do Índio:

“Em 1996, as três terras indígenas existentes no Rio de Janeiro – a Terra Indígena Guarani de Bracuí, localizada no município de Angra dos Reis, a Terra Indígena Araponga e a Terra Indígena Parati-Mirim localizadas no município de Paraty – tiveram o processo de demarcação concluído e foram homologadas pelo governo federal. O Presidente da República, seguindo a Constituição brasileira, reconheceu-as oficialmente como terras tradicionais do povo Guarani e fez publicar no Diário Oficial da União os decretos que dão direito aos Guarani a posse permanente dessas terras.

Vivem nas três aldeias, aproximadamente, 450 pessoas. A Terra Indígena Guarani de Bracuí é a que tem a maior população, cerca de 320 indivíduos. Mais da metade é constituída por crianças menores de 14 anos.”

Os indígenas lutam hoje pelo essencial direito de existir. Como se não bastassem as ameaças à sua sobrevivência e integridade física e ao direito de habitarem em suas terras — que lhes pertencem por lei e por legitimidade — os nossos povos originários lutam contra a real ameaça de ver seus idiomas, espiritualidade e costumes desaparecerem, tamanha a predatoriedade da aculturação à qual seguem sendo submetidos. 

Em tempos de coronavírus, há ainda a ameaça de que a invasão agressora de madeireiros, garimpeiros e grileiros em terras indígenas exponham as populações originárias remanescentes ao vírus letal que está ceifando vidas mundo afora.

Foto: Marcelo Camargo/EBC
O pastor Isac Santos em foto publicada no facebook que rendeu polêmica sobre evangelização de indígenas

Enterrados no esquecimento, perdemos o elo com nossa ancestralidade primal, perderam eles, perdemos nós, absurdamente privados dessa experiência — diz também a sinopse da escola de Madureira.

O RioAntigo propõe que se possa retomar o sonho de Guajupiá. Um Rio novamente limpo, mais equilibrado e harmonioso. A sabedoria indígena ainda deve correr em algumas veias profundas do povo que foi por eles chamado “kariókas”.

A força da ancestralidade e o legado dos tupinambás deve ser motivo de orgulho para todos nós. Não apenas neste Dia do Índio, mas todo “santo” dia. 

*João Freire é carioca do Méier, atualmente morador de Copacabana, depois de passar pela Tijuca e Flamengo. É advogado, tradutor e entusiasta da memória e da cultura brasileira e carioca. É redator do RioAntigo.

GALERIA DE IMAGENS – TUPINAMBÁS

SAMBA-ENREDO DA PORTELA

Autores do samba: Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D´Sousa e Araguaci

Índio é Tupinambá
Índio tem alma guerreira
Hoje meu Guajupiá é Madureira
Voa águia na floresta
Salve o samba, salve ela
Índio é dono desse chão
Índio é filho da Portela

Índio é Tupinambá
Índio tem alma guerreira
Hoje meu Guajupiá é Madureira
Voa águia na floresta
Salve o samba, salve ela
Índio é dono desse chão
Índio é filho da Portela

Clamei aos céus
A chama da maldade apagou
E, num dilúvio, a Terra ele banhou
Lavando as mazelas com perdão
Fim da escuridão
Já não existe a ira de Monã
No ventre, há vida, novo amanhã
Irim Magé já pode ser feliz
Transforma a dor
Na alegria de poder mudar o mundo
Mairamuana tem a chave do futuro
Pra nossa tribo lutar e cantar

Auê, auê, a voz da mata, okê, okê arô
Se Guanabara é resistência
O índio é arco, é flecha, é essência
Auê, auê, a voz da mata, okê, okê arô
Se Guanabara é resistência
O índio é arco, é flecha, é essência

Ao proteger Karioka
Reúno a maloca na beira da rede
Cauim pra festejar, purificar
Borduna, tacape e ajaré
Índio pede paz, mas é de guerra
Nossa aldeia é sem partido ou facção
Não tem bispo, nem se curva a capitão
Quando a vida nos ensina
Não devemos mais errar
Com a ira de Monã
Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver

Pro imenso azul do céu
Nunca mais escurecer
Pro imenso azul do céu
Nunca mais escurecer

(Samba-enredo da Portela / 2020)

DESFILE DA PORTELA – 2020

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