A data é 9 de novembro de 1889. Naquela tarde primaveril, jovens damas abastadas da Corte apressavam-se entre provas de roupa, arranjos de penteados e escolha de joias. Preparativos para uma travessia marítima quiçá nauseante; porém gratificante, sem dúvida. Mal sabiam as refinadas mocinhas: aprontavam-se para aquele evento que ficaria conhecido como o “Último Baile do Império”, festança luxuosa a estremecer a Ilha Fiscal, elegante entreposto aduaneiro Imperial na Baía de Guanabara, a seis dias da Proclamação da República.

Por seus exageros, e sobretudo devido à sua proximidade do golpe militar que derrubou a Monarquia e determinou o exílio de Dom Pedro II e da Família Imperial, esse evento — cuja justificativa formal era homenagear os oficiais da marinha chilena do cruzador Almirante Cochrane que se encontrava ancorado no Rio — gerou, na época, um misto de revolta e de admiração na população.

A suntuosidade da festa, cujo cardápio incluía faisões, camarões e até mesmo sorvete – algo banal atualmente, mas raro à época, especialmente em um novembro carioca – revelava, contudo, outra motivação para o rega-bofe: a comemoração das bodas de prata da Princesa Isabel, herdeira do trono, com seu marido, o Conde d’Eu, casados em outubro de 1864.

O republicanismo já era uma tendência política consolidada e com alguma força entre parlamentares, proprietários de terra e membros do Exército. O Imperador, embora já idoso e doente, desejava, entretanto, demonstrar a dignidade e a continuidade do sistema monárquico perante a alta sociedade nacional e representantes de outras nações.

Conta-se que, ao desembarcar na ilha, o Imperador teria se desequilibrado, mas rapidamente se recomposto, sem ir ao chão. “A monarquia tropeça, mas não cai”, teria dito, orgulhoso, o monarca enquanto em outro ponto da mesma Baía de Guanabara, na Escola Militar da Praia Vermelha, o tenente-coronel Benjamin Constant articulava com oficiais do Exército os detalhes do golpe que destronaria o último monarca das Américas.

Tivemos a honra de receber uma carta escrita por Judith de Almeida Senna Campos, uma jovem moradora do município de Cordeiro, então província e atual estado do Rio de Janeiro. Judith tinha 20 anos à época do Baile, e era irmã de tataravô de Humberto Figueira, seguidor do nosso Instagram do @RioAntigo.

A jovem autora acidental descreve interessantes detalhes do evento e da expectativa que havia em relação à celebração. Numa época de crise, a opulência do baile causou admiração e revolta. Não foram poucos os que tentaram sem sucesso ao menos ver, mesmo de longe, um pedaço da festa.

Na carta de Judith, poderemos acompanhar a visão a partir de dentro, pelos olhos de uma moça jovem, do grandioso evento, que passou ao imaginário popular por sua opulência e que até hoje é objeto de grande curiosidade devido ao exclusivismo que representa uma grande festa em um castelo em uma ilha reservada a aristocratas e autoridades.

Nós do RioAntigo temos o prazer de compartilhar a carta de Judith — que mantivemos com a mesma exata ortografia e acentuação da época — e, assim, nos transportarmos para a seleta lista de convidados, entre príncipes, princesas, viscondes, barões, embaixadores e oficiais de mar-e-guerra que desfrutaram de um dos mais importantes e controversos festejos que marcaram a história nacional.

A carta de Judith Senna

Detalhes do Baile na Ilha Fiscal
Esplendido! Maravilhoso! Sublime! Radioso! Ideal! Não. É impossivel foi sonho.
! ! ! ! ! !

Sennoca,

Não sabes o que o que vais ouvir, é tudo tão elevado que eu quero descrever, que não acho termos, em fim vou começar: no dia 9 as 11 horas da manhã já eu estava tratando de collocar sobre à cama, todos os objectos precisos para a noite, a qual eu estava achando que se demorava. Contava as horas. Parecia-me 3, não podes imaginar. Às 3 da tarde papai chegou, ficando mais satisfeita, jantamos as 4, isto é, jantaram porque eu não comi com receio de enjoar na travessia do mar.

Eram 5 horas quando eu e papai fomos nos vestir. Terminado, partimos no trem das 7, chegamos à cidade tomamos o bond, que conduziu-nos do Largo do Paço, ahi encontramos a familia do Sr. Gurrith pois estavamos tratados para irmos junctos; alugaram o bote o qual levou-nos à grandiosa Ilha, tal foi a sorpresa, prazer que sentimos, que parecia-nos estar num lugar encantado e habitado por fadas.

Conheces bem a Ilha pela parte externa, agora imaginas ver, bandeiras brasileiras, chilenas, galhardetes, folhagem, e iluminação à luz electrica, etc. O encouraçado chileno, estava bem em frente a Ilha e os navios de guerra surtos no porto, foram fazer-lhe guarda de honra; em todos havia luz electrica.

Desde o càes até a Ilha, tinha uma linha de batelões, todos illuminados em arcos, copos e muitas flores em symetria; parece-me que ainda estou passando entre eles tal foi a minha impressão.

Em frente ao desembarque tinha um grande pavilhão com 96 lampadas, era um verdadeiro paraíso. A banda de musica do Arsenal de Guerra ficou na torre, da onde fazia ouvir brilhantes peças. Eu queria ter o poder de fallar aqui e voçê ouvir ahi, porque só assim contaria tudo.

Não posso descrever os salões de dansa, bouffé, e a toillete das senhoras; o da familia imperial só me lembro dos dous riquissimos candelabros de prata, com 14 lampadas cada um e também um soberbo tapete espesso, sobre ele outro formado por innumeros ramos de violetas, um primor, se via arte e bom gosto.

Quanto as toilletes das senhoras eram o que havia de mais gosto e luxo, as damas do paço trajavam preto pelo facto da família imperial estar de luto, porèm eram sò gorgorão, velludo, setim, etc. Sobresahia entre ellas a Baroneza de Javary, ella estava tão abrilhantada, que, ao voltar-se todos olhavam-na pelo brilho que a rodeava.

A princeza tinha rico vestido preto bordado a ouro, eu só queria um brilhante do diadema que ella tinha na cabeça.

A ornamentação era tão bonita, que eu pouco dansei, somente para aprecial-a, depois havia muita gente demais.

Deves ficar admirado, pois eu também fiquei de papai me levar (muito podem os chilenos) a um baile público, porque tinha lá muita gente que não tinha cartão, eram entrusos. O meu vestido era muito simples porem muito bonito, era de curali côr de ouro com rendas e flores miudas; achei muita graça no reporter, elle vinha com muito enthusiasmo descrever a minha toillete, quando papai disse-lhe, que não queria meu nome nas folhas, pois cousa tão insignificante; ficando elle muito desapontado.

Tive pena de voçês não estarem aqui.

Termino desejando saude e felicidade a todos, e acceitem lembranças de papai e mamãi.

Darás um abraço em Petite por mim e acceitarás outro à esta tua irmã que muito t’estima

Judith

Lembranças a Gastão e Milóta

[Veja abaixo as páginas da carta]

A luz elétrica em abundância, novidade no final do século XIX, atraiu a curiosidade da população carioca e de convidados que, como Judith, vinham do interior do interior do Brasil, país de população ainda majoritariamente rural. Em contraste com a iluminação da ilha naquela noite de novembro, como que em sinal profético do período sombrio que se avizinhava para os Bragança deste lado do Atlântico, toda a família imperial trajava negro, em decorrência da morte do rei de Portugal, D. Luís I, que era sobrinho do Imperador brasileiro e falecera menos de um mês antes.

Mas os luxuosos trajes de luto das damas do Paço não entristeceram o ânimo de uma jovem do interior que, ainda que de classe abastada, não escondia em suas palavras a ansiedade que sentiu em ir à mais grandiosa festa da Corte imperial, para a qual deixou mesmo de comer para evitar desarranjos na travessia de barco. Havia também as moças que não comiam para conseguir ajustar mais os espartilhos ao corpo. O grande destaque em termos de beleza
feminina, para Judith, foi a Baronesa de Javari (Javary, na grafia da época), irmã da esposa do então chefe de governo, o já citado Visconde de Ouro Preto.

Observadora, Judith notou que intrusos não portavam o cartão de dança que deviam apresentar os convidados para que fossem incluídos os pares de cada dança, conforme o costume da época. Moça recatada, não teve sua toilette (palavra francesa que designava à época o look da dama) divulgada pelo repórter que cobria o evento por falta do consentimento do pai. Contemplar a luxuosa decoração foi o que mais lhe interessou diante do grande número de convidados, que lotavam os salões e pavilhões destinados ao evento.

O Baile da Ilha Fiscal, que atiça a imaginação de cariocas e turistas ao avistarem as torres do palacete neogótico quando olham para a Baía de Guanabara entre um afazer e outro ou em passeios contemplativos pelo Centro do Rio, não foi uma mera demonstração de status. Foi uma verdadeira coroação de um riquíssimo período da História do Brasil, que se iniciou com a Independência, em 1822, e cujo fim já se percebia muito próximo. O golpe republicano já se fazia sentir e uma futura coroação da Princesa Isabel era muito improvável na imaginação de boa parte dos monarquistas da época.

O pintor brasileiro Francisco de Figueiredo retrata uma cena da festa no famoso quadro “O Último Baile da Ilha Fiscal”, concluído mais de 15 anos após a queda da Monarquia, em 1905, que se encontra atualmente exposto no palacete da Ilha Fiscal. A pintura contém tanto elementos realistas quanto traços fortemente alegóricos. Na parte inferior, são demonstrados prazeres terrenos, o luxo e a elegância do evento. Já no plano superior, percebem-se do lado esquerdo a bandeira republicana resplandecente e, ao lado direito dos céus do quadro, uma cena de coroação da Princesa Isabel com ares etéreos, como que rumando em direção a um crepúsculo para deixar surgir o alvorecer do novo tempo republicano.

É certo que a princesa de fato nunca foi coroada Imperatriz. Em decorrência da Proclamação da República, ela jamais ascendeu ao trono. Curiosamente, a herdeira de Dom Pedro II não é conhecida na iconografia histórica como uma figura adornada por diademas ou tiaras, tal como na estátua que a representa na avenida que leva seu nome em Copacabana. A carta de Judith, contudo, apresenta-nos uma Isabel diferente das representações oficiais. No relato da nossa correspondente acidental, a Princesa está trajando um raro diadema, como se coroada estivesse.

Interessante como um resquício singelo de uma memória afetiva tão particular — uma simples carta de uma moça provinciana a seu irmão — pode estar tentando nos contar hoje algo único que a história oficial dos livros ainda não nos revelou.

Artigo escrito por Daniel Sampaio.

*Colaboração e pesquisa histórica de João Freire.

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