Até os ateus, os agnósticos, qualquer tricolor quando é perguntado sobre seu time, logo diz: graças a Deus sou tricolor. Há algo místico, sobrenatural, espiritual em ser tricolor. Quem é tricolor sabe do que estou falando, sabemos que ao entrar em campo, o jogo só acaba quando termina. Colocamos nossa armadura e parece uma segunda pele. Ouvimos narrações antigas dos gols de Rivelino, Washington, Assis, e dá um quentinho no peito. E quando em um chute do adversário a bola bate no travessão? Foi Castilho. Aquele gol aos 47 do segundo tempo? João de Deus intercedeu. Não há dúvidas. É uma identificação sobrenatural. Quando você se reconhece tricolor, não há escapatória. Talvez por isso exista uma música de torcida afirmando que os torcedores levarão o Fluminense no peito do berço até o caixão.

E para comemorar os 118 anos de uma história especial, coloco o hino feito por Lamartine Babo para tocar, lembro de todos os anos que comemorei tantos gols com minha família e penso: que cara especial esse Oscar Cox, aquele que teve a melhor ideia do mundo. Oscar Cox era carioca, nascido no Humaitá. Seu pai foi um dos fundadores do Rio Cricket e Associação Atlética em Niterói e esse carinho por esporte deve ter influenciado Oscar a criar o Fluminense. Estudou na Suíça e retornou ao Brasil com uma ideia que não queria sair de sua cabeça: preciso criar um time de futebol. Nessa época, os cariocas não ligavam muito para o futebol, o remo é que dominava seus corações. No dia 21 de julho de 1902 nasceu o filho vitorioso de Cox: o Fluminense Football Club, que foi o primeiro clube no Brasil com futebol no nome. Em uma reunião presidida por Manoel Rios e secretariada por Cox e Américo Couto, lançaram a proposta para Cox ser o primeiro presidente, e todos concordaram.

Na trajetória do tricolor de Laranjeiras há outras histórias interessantes. Um orgulho que temos é o Estádio Manoel Schwartz, conhecido como Estádio de Laranjeiras. Logo no primeiro ano de fundação, o clube adquiriu um terreno para servir de campo de futebol, o Campo da Rua Guanabara. Foi ali que os primeiros títulos aconteceram, além de ter sido palco da primeira partida da Seleção Brasileira. Anos mais tarde, nosso estádio foi erguido, o primeiro estádio em concreto do país. Já tive o prazer e a emoção de pisar no campo de Laranjeiras, e é uma sensação muito especial. Um lugar sagrado, sem sombra de dúvidas.

Primeiro clube com futebol no nome, primeiro estádio em concreto, o Fluminense foi o percursor de diversas modalidades esportivas, e iniciativas em prol do esporte. Até a invasão de campo foi o Fluminense que inaugurou, em um momento de revolta do tricolor Coelho Neto e seu amigo Ataliba Correia Dutra, indignados com a atuação do juiz em um jogo de 1916, pularam da tribuna social na direção do gramado. E os demais torcedores seguiram na direção do campo, causando tanta confusão que o jogo foi anulado pela primeira vez no Campeonato Carioca. Naquele momento acredito que Coelho Neto pensou “Esse juiz não está respeitando nossa história, terei que resolver isso!”. E resolveu.

Goleiro do Fluminense, Carlos José Castilho, que atuou pelo tricolor na conquista do mundial de 1952 – Acervo O Globo

Outro tricolor que sempre deve ser lembrado é Carlos José Castilho, o maior goleiro de nossa história. Castilho defendeu o tricolor nas décadas de 1940, 1950 e 1960, foi o jogador que mais vezes disputou partidas com nossa camisa. Conquistou a Copa do Mundo pelo Brasil duas vezes, foi Campeão Mundial pelo Fluminense em 1952. Castilho preferiu amputar um dedo para poder retornar aos gramados pelo Fluminense mais rápido do que os médicos tinham estipulado, o que demonstra sua total dedicação ao tricolor. Os médicos e a família foram contra essa decisão, mas nada o fez mudar de ideia.

Um dos momentos mais especiais que vivi foi o jogo Fluminense x Guarani, pela última rodada do Campeonato Brasileiro de 2010 no dia 5 de dezembro, quando fomos tricampeões. Eu estava no Engenhão com meus pais e meus irmãos, e pude ver pela primeira vez o meu time ser campeão brasileiro. Pude abraçar meu pai, o grande incentivador desse meu amor pelo Fluminense, e ver nos olhos dele a felicidade de estar vivendo aquele momento conosco. Foi emocionante, foi especial. Não consigo conter as lágrimas ao lembrar, pois parece que estou sentindo tudo novamente. O grito, o abraço, o choro, a alegria sem fim. Ao sair do estádio, uma chuva surpreendente tomou a cidade. Acho que São Pedro é tricolor e chorou bastante de felicidade.

Nesse dia de aniversário, reforço meu carinho por uma instituição tão importante para o futebol brasileiro, que hoje se posiciona como um Time de Todos, lutando contra o racismo e a homofobia, afirmando que o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive no estádio, e abrindo suas portas para o respeito e a união. O Fluminense é exemplo de clube comprometido com a saúde e bem estar do carioca, e busca, a todo momento, auxiliar no que pode famílias desamparadas. A cada dia tenho mais orgulho de ser tricolor.

Parabéns.

Texto da historiadora e tricolor de coração Ana Paula Reis, redatora do Rio Antigo.

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