Para dar o pontapé na “Rio de Igrejas”, a primeira coluna especial do Blog RioAntigo, falaremos sobre um dos templos mais importantes e emblemáticos da história da espiritualidade carioca: a Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo.

Primeira catedral da cidade, por diversas vezes abandonada e reformada, a Igreja dedicada ao nosso santo padroeiro não resistiu aos poderosos jatos d’água que devorariam o Morro do Castelo e toda a história do nosso berço colonial. A Igreja de São Sebastião faz-se presente na memória dos cariocas, eternizada pelo padroeiro que abençoa a nossa cidade.

Esse templo marca o início das nossas publicações aqui neste espaço, ao mesmo tempo em que comemoramos o primeiro aniversário do nosso Instagram @RiodeIgrejas.

A FUNDAÇÃO DA CIDADE, A CAPELA E O ABANDONO

A igreja data de 1565, quando o pe. Gonçalo de Oliveira funda uma casa-igreja de pau-a-pique e palha no morro Cara de Cão, na cidade recém-fundada por Estácio de Sá, invocando o nome de São Sebastião.

Tempos depois, a cidade é transferida para o Morro do Castelo e lá é erguida, entre 1568 e 1583, uma nova capela de grossa taipa.

O templo era simples e contava com paramentos da primitiva capela. Os restos Mortais de Estácio de Sá foram levados para lá.

Em 19 de julho de 1576, é criada a prelazia do Rio de Janeiro, independente da de Salvador na Bahia, então capital do Brasil colonial.

Os anos se passaram e a população se muda para a várzea, deixando a igreja em estado de abandono. Somente as liturgias obrigatórias eram feitas na igreja.

A CRIAÇÃO DA SÉ E SUAS MUDANÇAS

Em 1634, o governador Martim de Sá restaura a igreja e, no ano de 1676, é criado o bispado do Rio de Janeiro, transformando-a na Catedral da cidade.

No ano de 1703, a igreja vira alvo de roubos e invasões, devido ao seu estado precário, justificando o pedido do bispo D. Francisco de São Jerônimo de pedir a transferência da Sé.

Em 30 de setembro de 1733, a igreja da Santa Cruz dos Militares se torna a nova Sé e, quatro anos depois, ocorre nova transferência, devido a conflitos entre o bispo e a irmandade, dessa vez para a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, que manteve o status até o ano de 1808, quando a corte portuguesa chega à cidade, transferindo novamente a Sé, agora para igreja de Nossa Senhora do Carmo.

As Novas Reformas e a Administração dos Capuchinhos

Em 1792, o templo sofre outra reforma, dessa vez por ordem Vice-rei Conde de Resende.

No ano de 1842, a igreja é entregue aos Capuchinhos pra ser reestruturada com auxílio do governo.

No dia 10 de novembro de 1861, um temporal fende as paredes e danifica o madeiramento do teto, o que leva os padres a transferirem as imagens para sacristia. No dia 21 de dezembro do mesmo ano as obras da reforma se iniciam.

Já sob a responsabilidade dos Capuchinhos, a igreja entra em reforma, alterando as torres e o coro que foram elevados, janelas foram abertas nas laterais e na Capela Mor, e as colunas que dividiam a Nave viraram pilares imitando mármore. Além de novos forro, assoalho, grades e portas.

Somente uma das torres sineiras tinha um pináculo piramidal no seu topo com um São Miguel de cobre que substituía um galo que outrora pousava ali.

A torre ‘incompleta’ estava rachada até os alicerces e, para não comprometê-la, o obelisco não foi posto no alto. Junto a ela, foi construída uma estrutura que abrigava acima a escada para o coro, ajudando na estabilidade.

O seu frontão tinha forma triangular e na frente da igreja corria uma cimalha.

Entre as duas torres havia uma cruz de cantaria de 1,80m de altura.

Os padres ergueram uma gruta artificial em homenagem a Nossa Senhora de Lourdes e também o seu convento em dois pavimentos nos fundos do prédio.

A igreja possuía, no interior, três naves, separadas por quatro arcos ornados sobre colunas.

O altar-mor era em arco com uma coluna coríntia acanelada de cada lado e com um ornamento corniforme no topo. No centro do altar ficava a imagem de São Sebastião.

O arco cruzeiro tinha ornamentos de obra de talha, e, por cima dele, via-se a arca santa. Na parte superior estava Nossa Senhora, e os dois anjos da antiga igreja ajoelhados ao lado da arca.

A capela-mor era mais baixa e estreita que a nave. Havia um painel no teto e também corria uma cimalha de madeira dos dois lados da capela-mor, que chegava até ao fundo da igreja.

Havia painéis de Nossa Senhora de Belém, de São João Batista, de São Januário (no fundo deste quadro, estavam pintados os navios franceses, que vieram atacar o Rio de Janeiro em 1710) — pintados por Leandro Joaquim no século XVIII — e de São André Avelino.

O coro era cercado por uma grade de balaústres e possuía alguns ornamentos de talha.

Os altares eram distribuídos três de cada lado, na altura dos arcos, e mais dois de cada lado do Altar mor, com este totalizando os nove, anteriormente eram sete.

Na segunda coluna direita da nave ficava o púlpito com sua cobertura.

O SEU MELANCÓLICO FIM

Em novembro de 1920, a igreja e o convento são fechados para as obras de arrasamento do Morro do Castelo.

Durante o centenário da independência, em setembro de 1922, o morro já havia sido quase todo retirado.

Lá foram instalados os pavilhões da grande exposição comemorativa e, depois, o espaço foi loteado e entregue ao mercado imobiliário.

Na igreja também estava o Marco de fundação da Cidade, esculpido com o escudo português e a lápide tumular do fundador, Estácio de Sá.

Esses monumentos juntamente com a imagem do Santo, hoje estão localizados na Igreja dos Capuchinhos na Tijuca.

O marco de fundação da cidade ficava do lado de fora da igreja com uma grade sobre ele.

Há uma réplica dessas relíquias, no Aterro do Flamengo, que foi criada com material proveniente do desmonte do Morro do Castelo.

A igreja de São Sebastião foi riscada do mapa, assim como o Morro do Castelo e todas as suas joias coloniais, reminiscências do berço civilizatório da nossa cidade.

Na enorme cicatriz que resultou do arrasamento do Morro do Castelo abriu-se uma esplanada, com largas avenidas, que hoje conhecemos apenas como “Castelo”.

**Gil Nascimento é carioca de Belford Roxo. Fundador dos perfis @riodeigrejas e @ig_belfordroxo no Instagram, é um amante da história das igrejas do Rio de Janeiro. Guia de turismo em formação.

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