O dia 8 de março foi instituído pelas Nações Unidas como o  Dia Internacional da Mulher em 1975. A data marca uma jornada de manifestações por igualdade de direitos civis e em apoio ao voto feminino, iniciada em 1909, por movimentos sociais liderados por mulheres, na cidade de Nova York, nos EUA. 

Desde então, muita coisa mudou. O Dia Internacional da Mulher, além de representar esse percurso, passou a fazer parte da construção da memória simbólica dessa luta. E o importante dia se tornou o Mês da Mulher, período do ano em que as discussões sobre os papéis históricos, políticos, econômicos e sociais da mulher ganham ainda mais destaque, sobretudo no que se refere aos seus anseios e questões mais profundas, como a violência doméstica, a igualdade de salários e os direitos reprodutivos.

Pensando nisso, para fechar o Mês da Mulher com “chave de ouro”, o RioAntigo convocou mulheres cariocas — de nascença ou não— para contribuir com suas visões muito particulares, porém tão diversas.

Por meio de convite nos “stories” do Instagram e também fora das redes sociais, mulheres cariocas das mais diversas idades, etnias, ideologias e localidades escreveram, cada uma, um texto em homenagem à mulher na história do Rio que mais admiram e que mais lhes inspiraram em suas vidas.

Recebemos 11 textos sobre incríveis personalidades femininas que deram um passo adiante na caminhada pela igualdade e que, em algum momento, fizeram do Rio o seu lar e felizardo lugar de seus legados.

A Equipe RioAntigo, que tem três mulheres em sua redação — a Amanda, a Egle e a Jennifer, que escreveram os textos sobre a Elke, a Julia e a Elza, respectivamente — apoia a luta histórica do feminismo, em suas diversas vertentes.

Você pode conferir abaixo os textos que, com muito carinho, interesse e boa vontade, foram enviados para a nossa caixa de entrada. As grandes mulheres homenageadas estão listadas em ordem alfabética. Esperamos que gostem.

CECÍLIA MEIRELES

Por Deborah do Nascimento*

Como eu prestava especial atenção às aulas de Literatura, disciplina que tanto gostava, lembro de quando fui apresentada por uma professora à obra dessa mulher maravilhosa: Cecília Meireles.

Ficou guardada em minha mente o seguinte verso de um de seus poemas: “não sou alegre, nem sou triste, sou poeta”.

A explicação da professora era de que Cecília não queria ser chamada de poetisa, pois lhe parecia ser uma forma de dividir, de comparar ou, até mesmo, de diminuir. Poesia é poesia e não tem sexo!

Fiquei ainda mais apaixonada, pois Cecília me parecia bem moderninha e feminista, sendo que de forma leve e poética, sem brigas ou grandes discursos. O ideal para a época!

Escrevia de forma simples, porém de muita complexidade, especialmente quando dizia que a vida é efêmera.

Destaco aqui um livro maravilhoso no qual Cecília assumiu o lado dos oprimidos, fazendo deles heróis. Vale a pena ler o “Romanceiro da Inconfidência “. Nele, estão contidas reflexões importantes de natureza política, em torno de questões como justiça, miséria, ganância e idealismo. Trata-se de uma proposição temática atemporal e extremamente atual!

Como não se espelhar nessa mulher?

Sou advogada, mãe de 3 filhos e avó. Como Cecília, levo minha vida a sonhar, sem ser cega, e a amar, sem esquecer que tudo passa e que não existe só alegria ou só tristeza, mas sim vida!

 

*Deborah do Nascimento tem 55 anos e é carioca do Méier. Formou-se em Direito pela Universidade Candido Mendes com 50 anos de idade e hoje advoga na área trabalhista.

 

CHIQUINHA GONZAGA

Por Vilma Lima*

Foram poucas as mulheres que inspiraram a minha vida, pois nasci em 1954, momento histórico em que nós, mulheres, precisávamos seguir os modelos pré-estabelecidos por uma sociedade machista e, frequentemente, misógina.

Os modelos femininos que eu conhecia na minha juventude não chegavam a ser inspiradores o suficiente para uma alma inquieta e hiperativa como a minha. Os seres humanos são criaturas tribais e as tribos definem-se a partir de certos símbolos, mitos e código moral. Os desejos que eu tinha de realizar coisas fora do padrão convencional me colocavam de fora das tribos da minha época.

Como pode uma jovem querer estudar Eletrônica em uma escola técnica majoritariamente frequentada por homens? Como quer ganhar mais? Como não quer ser professora e casar com o cadete?

Mas, na Escola Normal, durante as aulas de História da Música, conheci a compositora, instrumentista e maestrina Francisca Edwiges Neves Gonzaga. Nascida no século XIX, Chiquinha entendia que uma mulher podia ser tudo, fora das profissões e dos padrões definidos pela sociedade.

Como uma mulher poderia querer se sustentar como musicista e quebrar todos os padrões? Chiquinha conseguiu ser maestrina e compositora, obtendo grande sucesso comercial. Conseguiu ser tratada com respeito e decência, por sua postura, talento e coragem. Suas obras abriram caminho para muitas outras mulheres, na música e na vida em sociedade. Mesmo tendo que enfrentar a sociedade hipócrita da Belle Époque, brilhou como nenhuma outra.

Chiquinha Gonzaga foi, na minha opinião a primeira feminista do Brasil, quando essa palavra nem sequer existia. Formou uma tribo com valores e ideias com os quais eu podia me identificar. Eu, assim, me enquadrei. Foi modelo e fonte de inspiração para que eu pudesse estudar em uma escola com maioria masculina, sem perder o orgulho e a força para encarar o dia-a-dia. Mais tarde, o exemplo de Chiquinha ajudou com que eu me sentisse confortável e destemida, quando trabalhava no meio dos homens na empresa de telecomunicação onde permaneci por mais de 40 anos.

Com ela, eu aprendi que a mulher pode tudo. Vivi minha vida inspirada por sua primeira marchinha, “Ô abre alas, que eu quero passar…”

 

*Vilma Lima tem 65 anos e é carioca de Madureira. Nasceu na Estrada do Portela. Foi criada em Marechal Hermes. Suburbana, com muito orgulho. Técnica em eletrônica e administradora de empresas, graduou-se, este ano, em Biologia na UniRio.
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ELKE MARAVILHA

Por Amanda Thurler*

“Entrei na prisão cidadã brasileira naturalizada e saí de lá apátrida. Eles tomaram meus documentos. Não é um documento que vai me dizer quem eu sou, eu sou brasileiríssima e pronto.”

(Elke Maravilha, em entrevista a Marília Gabriela)

 

Filha de mãe alemã e pai russo. Avó do Azerbaijão e avô da Mongólia. Em 1945, sob os holofotes da Segunda Guerra Mundial, nasce, na Rússia, Georgievna Grunnupp, a Elke Maravilha, mulher que você certamente conhece, nem que seja só de vista.

Sua história tem acontecimentos suficientes para encher três, quatro ou até cinco vidas. Georgievna era fluente em latim, grego, russo, alemão, inglês, francês, português, italiano e espanhol. casou-se oito vezes, trabalhou como professora, bancária, bibliotecária, secretária trilíngue, modelo, cantora, atriz, tradutora e intérprete. Cursou Letras, Medicina e Filosofia.

Durante a ditadura militar, foi presa por violação à lei de Segurança Nacional. Georgievna perdeu sua cidadania brasileira e se tornou apátrida. Contendo o mundo dentro de si, ela chegou ao Brasil com seis anos de idade. De estética ímpar, seu trabalho como modelo chamou a atenção de diversos estilistas. Logo se tornou uma das manequins mais emblemáticas do país.

Os lábios coloridos, os acessórios marcantes e as perucas entraram em cena quando Georgievna se tornou jurada no programa do chacrinha em 1972, nascia então Elke Maravilha — personagem de aparência estrategicamente construída e de fala politicamente marcada. Anarquista, fã de Drummond e de Cecília Meirelles, libertária e de posições políticas fortes como: “eu nunca fui mulher ou homem, sempre fui pessoa”, afirmava.

Suas opiniões eram sempre fora do convencional, mas, com seu carisma inegável, Elke soube destilar seus ideais de forma palatável e ganhar a simpatia até dos mais retrógrados. Sempre com sorriso escancarado e personalidade múltipla, Elke transcende todos os rótulos e fica impossível encaixá-la em uma profissão. Qualquer definição a não ser a de artista seria menor e injusta.

O mundo perde um pouco de seu brilho com a sua morte no Rio de Janeiro, em 2016. Parafraseando Drummond, não se sabe se o mundo não acabou naquele dia. Às vezes, o mundo acaba em silêncio, fazendo um barulho leve de folha.

Tempos depois é que se percebe, mas já estamos vivendo em outro mundo. O mundo sem Elke certamente tem menos cor, mas seus ideais ainda inspiram toda uma geração. Elke Maravilha foi personificação de liberdade, resistência, diversidade, autenticidade e, mais do que tudo, de alegria.

Nada poderia ser mais carioca.

 

*Amanda Thurler tem 26 anos e é carioca do Jacaré. Cientista Social de formação, é apaixonada por viagens e dança. Trabalha atualmente com ajuda humanitária na Bósnia e é redatora do RioAntigo.

ELZA SOARES

Por Jennifer Vidal*

Elza Soares iniciou sua atividade artística em 1953 e, com a fortaleza de sua presença, já lançou 34 álbuns. Uma carreira que tem seu início marcado pelo ímpeto de cuidar de um de seus filhos, quando dois deles já haviam se despedido do mundo.

Luz DO e PARA o “Planeta fome”, nome da sua última obra.

Planeta fome, de onde disse ter vindo na sua conhecida aparição no programa de calouros de Ary Barroso.

É ela mesma, que foi eleita pela BBC como cantora do milênio.

Posta a sua avidez pela arte, enfrentou o machismo estrutural reproduzido por seu pai e seu irmão. Transformou dor em poesia. Luta em conquista. Resistência em música.

Pioneira no protagonismo da luta do feminismo negro no Brasil. Voz para emudecidas.
Parâmetro de vida.

Sobre a sua trajetória? Tem biografia, documentário, musical, samba enredo.

Conquistou o mundo com sua voz, expressão, letra, poesia em ser quem é, onde é e tudo o que isso estampa.

Metamorfoseou sua vida e a de muitos através da criatividade – habilidade hoje apontada como “competência do futuro”, vejam só…

Em plena ditadura militar, recebeu uma carta pela fresta da porta de sua casa, no Jardim Botânico, onde morava com Garrincha, para que deixasse o local em 24 horas. Recorreu a Chico Buarque e foi-se embora para a Itália, onde viveu por 4 anos.

Perdeu filhos. Sofreu. Ganhou prêmios. Brilhou.

Vive e representa.

De forma ironicamente involuntária à cor, credo ou classe.

A todas nós.

E não para.

 

*Jennifer Vidal Ferreira tem 30 anos e é carioca que já passou por todas as zonas da Cidade Maravilhosa. Advogada de formação, iniciou seu ativismo feminista na vivência no carnaval de rua do Rio de Janeiro, onde ocupa a posição de surdista em alguns blocos. É apaixonada por gente, estudante de proteção de dados e Direitos Humanos, e engajada na luta pela igualdade de gênero e redatora do Rio Antigo.

FERNANDA MONTENEGRO

Por Roberta Balbino*

Do alto dos seus 90 anos, Fernanda Montenegro parece mais jovem e lúcida do que muitos jovens que conheço. Defensora incansável da cultura e da arte, essa carioca do Méier tem, em seu currículo, várias novelas e filmes, documentário e até um livro fotobiográfico.

Seu primeiro trabalho no teatro foi aos 8 anos de idade. Já foi locutora, radialista e apresentadora. Só no Grande Teatro Tupi, a atriz trabalhou em mais de 160 peças. Teve papéis inesquecíveis em novelas como “A Guerra dos Sexos”, “Zazá”, “Esperança”, “As Filhas da Mãe”, “A Próxima Vítima” e “Belíssima” — quem não se lembra da malvadíssima vilã Bia Falcão, uma Odete Roittman de nossos tempos?

Fernanda atuou, também, em filmes marcantes como “Olga”, “O Auto da Compadecida”, “Central do Brasil” e, mais recentemente, em “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz.

Por “Central do Brasil”, obra-prima do cineasta Walter Salles, recebeu a primeira e única indicação para a categoria de melhor atriz dada a uma artista brasileira no Oscar de 1998. Não à toa, é considerada a matriarca da dramaturgia brasileira, tendo sido agraciada com o prêmio de melhor atriz no 41o Emmy Internacional, em 2013, por sua atuação na série global “Doce de Mãe”.

Como a própria “Fernandona” diz, vem de uma família de mulheres fortes. Defende a independência da mulher, se considera uma feminista atuante e acredita que, por meio do seu trabalho, pode exaltar o feminino, inspirando muitas outras mulheres.

Além de tudo, Fernanda Montenegro é um grande exemplo, nos dias de hoje, de que é possível uma mulher envelhecer ativa, plena e feliz.

Para mim, Arlette Pinheiro da Silva Torres, carinhosamente apelidada de “Fernandona”, é gigante; alguém que me inspira a estudar, trabalhar e a correr atrás dos meus sonhos. Ela inspira nós mulheres a não deixar nosso espírito parar no tempo e abre nossos olhos para a importância do pensamento crítico.

Quando crescer, eu quero ser que nem ela.

 

*Roberta Balbino tem 30 anos e é carioca da Tijuca. Publicitária e estudante de Direito, é tão apaixonada pelo Rio de Janeiro que criou o projeto “O Rio não é só Praia” nas redes sociais.

JULIA LOPES DE ALMEIDA

Por Egle Silva*

“Filha de nobres portugueses, Julia Valentim da Silveira Lopes de Almeida nasceu em 24 de setembro de 1862, na cidade do Rio de Janeiro, onde também faleceu, em 30 de maio de 1934, aos setenta e dois anos de idade, vítima de Malária, contraída em viagem à África, de onde tinha voltado oito dias antes.

Ainda criança, aos sete anos, mudou-se com os pais para a fazenda da família, em Campinas, interior de São Paulo, onde viveu até os vinte e três.

Oriunda de um meio social privilegiado, criada, nas palavras de Nadilza Moreira, “entre livros e rendas”, encontrou no pai, para a sua surpresa, o estímulo necessário para as suas realizações literárias, que teve como nascedouro não a poesia desejada, escrita às escondidas, mas a crônica.

Em 1881, aos dezenove anos, publica seu primeiro texto, “Gemma Cuniberti”, no qual narra a epifania sentida ante a apresentação da atriz italiana que dá nome ao texto, no Teatro Municipal de Campinas.

Julia Lopes de Almeida escreveu, por mais de trinta anos, para O Paiz, jornal carioca conservador de grande circulação e influência no país. Nele publicou, sob a forma de folhetim, seu primeiro romance, “Memórias de Marta”.

Com o marido, o jornalista e poeta parnasiano, Filinto de Almeida, compunha um quadro antagônico, porém equilibrado e harmônico, levado da vida familiar e doméstica para a profissional e artística.

“A Casa Verde”, seu último romance publicado, também em folhetim, no Jornal do Comércio, em 1934, é representativo dessa transição, pois foi “escrito de colaboração com meu marido”, disse Julia em entrevista. O livro, continua, “lembra-me uma porção de momentos felizes”.

A casa de Julia, em Santa Teresa, onde morou com marido e filhos por duas décadas, é emblemática do papel nada convencional por ela desempenhado: não tão somente mulher, esposa e mãe, responsável pela manutenção da estrutura doméstica familiar, mas também autora, escritora profissional.

O imóvel foi comprado com os proventos advindos do sucesso de A falência, romance de 1901, que traz no seu cerne uma discussão acerca da mulher, seu papel na sociedade, seus conflitos, ignorados pelos homens, e sua atuação para além do lar.

Apropriando-me de expressão de João do Rio, a casa de Santa Teresa foi mais do que uma morada, uma residência, um domicílio, uma habitação: ela foi um Lar de autores, assim convertido por sua proprietária.

Palco de saraus e reuniões literárias, para lá convergia a nata intelectual do país, numa época em que às mulheres era proibido participar dos encontros realizados em cafés e confeitarias, exclusivamente masculinos.

Julia é símbolo de um protofeminismo brasileiro, já encarnado na figura de outra grande mulher, Maria Firmina dos Reis, precursora da temática abolicionista e primeira mulher a publicar um romance no Brasil, Úrsula, de 1859.

Única mulher a integrar o renomado grupo de intelectuais que conceberam a Academia Brasileira de Letras, Julia experienciou a misoginia de seu tempo: foi negada a inclusão do seu nome na lista oficial de fundadores, bem como a cadeira número três de imortal, dada ao seu marido, a quem a história da literatura reservou a alcunha de “acadêmico consorte”.

Desde 2010, o acervo pessoal de Julia Lopes de Almeida, com seus escritos, anotações e trabalhos inéditos, faz parte dos arquivos da casa que ela ajudou a criar – e a apagou dos registros oficiais de fundação pelo simples fato de ser mulher. Ainda que tardia, sua entrada, simbólica, na ABL, deve ser comemorada, em especial pelos pesquisadores.

Para além do duplo tempo histórico no qual se situa – do Brasil monárquico e do Rio de Janeiro da Primeira República – e da sua condição de abastada, Julia Lopes de Almeida encarnou a mulher dos novos tempos: detentora de diversos papéis, inclusive de mãe, profissional e provedora da família, sem abrir mão de qualquer um deles. Em vida, já era imortal. E na sua obra se imortalizou – como Ulisses.

*Egle Pereira tem 42 anos é carioca do Flamengo. Pesquisadora, é Doutora em Letras pela UERJ, além de tradutora e revisora.

LEILA DINIZ

Por Rosely Junger*

Minha mãe, suburbana, costureira, dona de casa, dois filhos para criar, era fã de Leila Diniz. Dizia que ela era terrível!

Leila Diniz nasceu em Niterói, mas era identificada como a “Mulher da Ipanema”, bairro que testemunhou os momentos mais simbólicos de sua vida. Eu, particularmente, adorava ver as imagens dela na praia, com aquele barrigão de fora, escandalizando a sociedade da época.

Leila foi professora primária, mas abandonou o magistério para correr atrás da carreira de atriz. Foi na Rede Globo onde ela conseguiu seu primeiro papel de destaque, em 1965, como vilã da primeira novela da emissora, “Ilusões Perdidas”.

Os conservadores a odiavam, pois Leila dizia o que queria e transava com quem queria. Quase fechou o Pasquim por causa de uma entrevista que concedeu, cheia de palavrões e de opiniões avançadíssimas sobre sexo.

Imaginem: quando o país estava em plena ditadura, ela foi uma mulher transgressora que quebrou tabus para as mulheres cariocas. Foi perseguida pelo regime militar, após a instauração da censura prévia, em 1970. Perdeu contratos profissionais e teve que se retirar da cidade do Rio, às pressas.

Leila morreu tragicamente, aos 27 anos, num acidente de avião.

Esta é a minha visão sobre essa mulher única, que, simplesmente sendo que ela era, marcou profundamente a história da nossa cidade e do país. Como diz a letra da música de Rita Lee, “toda mulher é meio Leila Diniz”.

 

*Rosely Junger tem 55 anos e é carioca da Piedade. Microempreendedora, casada, mãe e avó. Ama muito a cidade onde seus avós portugueses vieram morar na década de 20.

LÉLIA GONZALEZ

Por Evelyn Dias*

Meu nome é Evelyn Dias, mulher negra, nascida na Baixada Fluminense. Filha de professor e de dona de casa que trabalha como doméstica para contribuir com a renda familiar. Psicóloga clínica, formada pela PUC-Rio, Mestre em Relações Étnico-Raciais, CEFET-RJ, e Doutoranda em psicologia pela UFF. 

Começo me apresentando por entender a importância de marcar o meu lugar e fala e de enunciador tão caros a mim. São caras, pois vivemos em uma sociedade que tentam silenciar a voz dos oprimidos, nesse caso, entre várias opressões, aquela que principalmente me atravessa é a raça e o gênero.

Tal como eu, Lélia Gonzalez também era uma mulher negra. Se a procurarem no Google, a definição provavelmente será de historiadora, filósofa, geógrafa, professora acadêmica e ativista. A escolha pelo ativismo provavelmente se deu por suas vivências, pois o fardo de ter a pele preta e de ser mulher está sobre nós antes mesmo de nascermos.

Fico pensando que para além desses adjetivos, Lélia foi uma mulher como muitas outras, filha de alguém, irmã de alguém, amiga. Mulher que teve sua vida atravessada por experiências ruins, mas também por experiências boas. Penso nas vivências que atravessam nossas trajetórias e que muitas vezes são tão comuns.

Lembro-me da primeira vez que li um texto de Lélia: “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”. Me causou estranheza. Nesse texto, ela narra os lugares que a mulher negra ocupa na sociedade brasileira e, para tal, recorre a uma escrita considerada como “não acadêmica” por não obedecer à gramática normativa.

Denuncia também a linguagem dominante vigente e apresenta, dentre as diversas formas de racismo, o preconceito racial linguístico (resquícios da linguagem africana).

Enquanto lia esse texto me senti conectada com sua escrita, por falar de minha história, por saber das marcas linguísticas que trazemos de nossos ancestrais. Foi, para mim, um motivo de orgulho evidenciar uma escrita e fala que rompe com as práticas costumeiras.

Lélia Gonzalez é uma pessoa com a qual me identifico. É a mulher em quem encontro inspiração e acolhimento para poder continuar a lutar pela emancipação do negro.

Para além de uma inspiração intelectual, Lélia é uma inspiração de jeito de viver. É a possibilidade de reconhecer a minha ancestralidade. Porque, tal como Gonzalez, muitas mulheres negras deram suas vidas para que eu estivesse onde estou hoje.

 

*Evelyn Dias tem 33 anos e é carioca de São João de Meriti. Mulher negra, psicóloga clínica, Mestre em Relações Étnico-raciais e doutoranda em Psicologia.

 

MARIA LEOPOLDINA DE HABSBURGO-LORENA

Por Thaís Barbosa*

A minha homenageada é Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, conhecida por nós como Dona Leopoldina, Imperatriz do Brasil.

Nascida na Áustria em 1797, foi preparada para reinar. Era neta de Leopoldo II, cunhada de Napoleão Bonaparte. Casou-se por procuração com o Príncipe D. Pedro e chegou ao Brasil em 1817. Segundo historiadores, abraçou o Brasil, e seu povo, como seus e a Independência como sua causa. Conselheira do marido e uma das principais articuladoras no processo de Independência — entre 1821 e 1822.

Como regente, liderou o governo do Império nas ocasiões em que D. Pedro viajava pelas províncias brasileiras. Foi a primeira Imperatriz do Brasil e, também, a primeira mulher a se tornar chefe de estado em um país americano independente.

Muito querida pelo povo brasileiro, sua popularidade era até mais expressiva do que a do Imperador D. Pedro I. Dona Leopoldina morreu carioca, no Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, em 11 de dezembro de 1826, com apenas 29 anos.

Minha admiração por ela vem do fato de que, mesmo vendo as diferenças entre o lugar onde foi criada e o lugar onde foi “jogada” por causa de um acordo de paz, Dona Leopoldina não esmoreceu, nem desanimou. Obrigada a conviver com a incômoda presença da Marquesa de Santos, amante do Imperador, Leopoldina continuou apaixonada pela terra que reinava, e pela qual era apaixonada.

A jovem princesa, amiga muito próxima de José Bonifácio, devido a afinidades científicas e ideológicas, engajou-se no bem da nação brasileira e teve papel preponderante na Independência do nosso país. Foi ela quem, de fato, declarou a nossa Independência, enquanto o Imperador, em viagem a São Paulo, dava o famoso Grito do Ipiranga.

Viva Leopoldina, Imperatriz do Brasil!

 

*Thais Barbosa tem 33 anos e é carioca de Petrópolis. Mãe do João Lucas, é publicitária de formação, empresária pelas circunstâncias e apaixonada pela história do Império do Brasil.

MERCEDES BAPTISTA

Por Rebeca Barboza*

Força, coragem e persistência são palavras que resumidamente definem a resistência de Mercedes Baptista: a primeira bailarina negra a compor o corpo de baile do renomado e concorrido Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Para muitos, esse título pode não significar muita coisa, mas para nós, mulheres pretas e artistas, é de extrema importância ter um ícone de representatividade negra e dançante como Mercedes foi, é e está viva em cada uma de nós.

Com sua origem humilde, vinda de Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense, a bailarina iniciou sua experiência artística com o balé clássico no ano de 1945, modalidade na qual, ainda nos dias atuais, possui o modelo predominantemente europeu. Na década de 1940 não foi diferente. Quebrando os conceitos e paradigmas racistas que a nossa sociedade tem como padrão, Mercedes ocupou e representou uma comunidade invisibilizada, marginalizada e sexualizada e, por esse motivo, era da linha do fundo ou excluída dos repertórios. Quase não conseguia trabalhar pela sofrida discriminação racista.

Mercedes integrou e atuou no Teatro Experimental do Negro como bailarina, colaboradora e coreógrafa e, nesse período, foi convidada a estudar nos Estados Unidos da América em uma Cia de Dança onde todos os integrantes eram negros. Colheu sementes da dança moderna e as plantou aqui no Brasil fundando seu próprio balé, chamado “Ballet Folclórico Mercedes Baptista” com objetivo de formar e capacitar bailarinos negros e pesquisar sobre sua ancestralidade afro-brasileira.

Em homenagem a Xica da Silva, a bailarina coreografou as alas de Comissão de Frente e a Ala do Minueto da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, foi bastante criticada por haver um toque clássico em suas criações, mas serviu de inspiração alguns anos depois para outras escolas.
Logo eu, iniciei minha carreira como dançarina, assim como Mercedes, no balé clássico, depois bebi das fontes das danças urbanas,

contemporânea e afro. Desde nova fiz aulas de teatro, música e dança e me sinto muito completa e realizada com ambas as áreas artísticas. Já integrei a Cia de Dança Passinho Carioca e atualmente integro a Cia Folclórica do Rio-UFRJ e como formação acadêmica curso Bacharelado em Dança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Eu, Rebeca Barboza, como artista, negra e periférica tenho um imenso prazer de dizer que vim da mesma cidade que essa mulher imensurável e brilhante. Somos cariocas, batalhadoras e inspiradoras para os nossos. Mercedes faleceu no ano de 2014, mas fez e faz florescer várias e vários Mercedes através de sua história e representação tão rica e inspiradora. Sejamos todas, todos e todes Mercedes!

 

*Rebeca Barboza tem 18 anos e é carioca da Penha. Bacharelanda em Dança pela UFRJ, é intérprete, dançarina, cantora e musicista.

 

 

NISE DA SILVEIRA

Por Isadora Sampaio*

Eu, que sou carioca, psicóloga, apaixonada por arte e militante da luta antimanicomial, decidi homenagear a psiquiatra Nise da Silveira. Nascida em Alagoas, Nise passou boa parte de sua vida no Rio de Janeiro e deixou aqui um legado de seu trabalho, uma verdadeira revolução na ética do cuidado a pacientes com transtornos mentais que lhe rendeu reconhecimento nacional e internacional.

Nise é uma figura inspiradora e precursora em muitos sentidos. Nascida em Maceió no ano de 1905, foi uma uma das primeiras mulheres a se formar em Medicina no Brasil, em 1921, na Faculdade de Medicina da Bahia. Veio para o Rio em 1927 com seu marido, Mário Magalhães da Silveira, também médico.

Em 1933, começou a trabalhar no Hospital da Praia Vermelha, hoje campus da UFRJ — universidade onde fiz minha Graduação em Psicologia e que carrega, com cada azulejo de sua antiga construção, histórias duras de seu tempo de hospício, mas também das conquistas de tantas mentes brilhantes que lá se formaram.

Na década de 1930, Nise se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e, em 1936, durante a Intentona Comunista, foi presa. Durante os 18 meses de sua prisão, conheceu o escritor Graciliano Ramos e, dessa convivência, nasceu sua participação no livro “Memórias do Cárcere”.

Retornou ao trabalho apenas em 1944, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro. Discordava dos métodos vigentes de tratamento para pacientes com transtornos psiquiátricos, como o eletrochoque e a lobotomia, os quais considerava agressivos. Como punição, a chefia médica transferiu Nise para o setor de Terapia Ocupacional, área pouco valorizada por seus pares, que se limitava a “receitar” aos pacientes tarefas de limpeza e manutenção.

Nesse espaço, Nise criou ateliês de pintura, desenho e modelagem, oferecendo um tratamento mais humanizado e percebendo a potência terapêutica do uso da arte, da criatividade e da expressão simbólica em pacientes com transtornos mentais severos, especialmente em esquizofrênicos. Ela foi também pioneira da psicologia Jungiana no Brasil obtendo, inclusive, reconhecimento do próprio Jung.

Em 1952, Nise fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudos e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos desses ateliês e, em 1956, criou a Casa das Palmeiras, clínica voltada à reabilitação de ex-pacientes manicomiais, ainda hoje funcionando em Botafogo.
Visitar o museu do Instituto Nise da Silveira — nome atual da instituição onde ela atuou —, onde estão, até hoje, as obras do seu vanguardista ateliê, foi uma das experiências mais marcantes e enriquecedoras na minha vida e na minha formação como psicóloga!

Infelizmente, o Instituto Nise da Silveira, como tantas outras instituições de saúde pública, enfrenta tentativas de desmonte do SUS e retrocessos no campo da saúde mental. Apesar disso, segue como um espaço de referência em atenção psicossocial, e se firma como um símbolo de resistência e potência do SUS, da arte como instrumento terapêutico e da luta antimanicomial.

 

*Isadora Sampaio tem 27 anos e é carioca da Barra da Tijuca. Psicóloga, trabalha com Educação e, nas horas vagas, aprecia outras grandes paixões: a dança, o canto e as praias do Rio. Carioca, com muito orgulho!

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