Em 1908, a região do início da Glória, onde o tradicional bairro se encontra com o Centro, era bem diferente da que estamos acostumados a ver hoje quando passamos apressados prestes a cruzar pela Lapa. Ali ficava a Praia de Santa Luzia, local onde havia sido construído o primeiro trecho da Avenida Beira-Mar, obra entregue apenas dois anos antes pelo Prefeito Pereira Passos ao final de sua gestão.



O PALÁCIO MONROE E O MORRO DO CASTELO



O Palácio Monroe, inaugurado pouco tempo antes para sediar a Conferência Pan-Americana de 1906, reinava na paisagem, com sua feição eclética de ares parisienses em contraste gritante com o antigo Morro do Castelo. Ainda inteiro em 1908, o morro — que foi um dos berços da cidade do Rio de Janeiro —, servia-lhe de pano de fundo, lembrando aos cariocas de seu passado colonial.




Considerado pela elite de então como um traço atrasado e sujo que muitos queriam esquecer, o morro e seus cortiços miseráveis representavam um empecilho para os planos futuros dos idealizadores do novo e reluzente Distrito Federal, que tinha na Avenida Central o seu símbolo maior da modernidade. Predominavam, nos meios políticos da elite, argumentos questionáveis sobre a pretensa insalubridade causada à cidade por aquele acidente geográfico, que, segundo teoria antiga, não permitiria a circulação de bons ares pela região central do Rio.




Usando como pretexto a renovação do Centro para as comemorações dos 100 anos da Independência do país, as autoridades mandaram arrasar o Morro do Castelo, ao final de 1922, à base de poderosos jatos d’água, juntamente com suas relíquias arquitetônicas coloniais.



A PRAÇA PARIS E O PLANO AGACHE




A Praça Paris, próxima providência pública de grande porte a ser implementada na região, só viria a ser inaugurada anos depois, em 1926, durante a gestão do Prefeito Prado Júnior, às custas de mais um aterro.




A praça foi o marco inicial do famoso Plano Agache, ideia urbanística do francês Alfred Agache que havia sido encomendada pelas autoridades locais a fim de aprofundar ainda mais a transformação do Rio numa Paris dos Trópicos. O Plano Agache viria a ser finalizado em 1930 e previa transformações extremas na região central da cidade, com o estabelecimento de um eixo monumental que as autoridades consideravam digno da capital de uma grande nação.



O ATERRO DO FLAMENGO E O MONUMENTO AOS PRACINHAS



Décadas depois, no ano de 1965, quando o Rio comemorava seu Quarto Centenário, o Governador do então estado da Guanabara, Carlos Lacerda, deu ao bairro mais uma de suas grandes mudanças. A região havia recebido, mais uma vez, um aterro com o que sobrou do arrasamento do Morro de Santo Antônio anos antes e, no local, construiu-se o Parque do Flamengo.




O novo espaço, que se livrou de virar um aglomerado de avenidas e prédios devido à genialidade e influência da arquiteta-paisagista e urbanista Lota de Macedo Soares, era o espaço ideal para as Forças Armadas construírem o seu monumento em homenagem aos pracinhas.




O monumento, traço mais modernista e brasiliense que há, até hoje, em nossa arquitetura monumental, foi um projeto dos arquitetos Marcos Konder Netto e Hélio Ribas Marinho, vencedores de um concurso nacional organizado pelo urbanista Lúcio Costa, criador da nova capital no Planalto Central.




O Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial foi inaugurado em dezembro de 1960 — alguns anos antes da inauguração do Parque do Flamengo — e contou com a presença do então presidente Juscelino Kubitschek, que recebeu os restos mortais de mais de 450 combatentes brasileiros — os valorosos “pracinhas” — enterrados na Itália desde 1945.



A MARINA DA GLÓRIA



A última intervenção de porte realizada na região ocorreu quando da construção da Marina da Glória, inaugurada em 1979, com projeto original dos arquitetos Amaro Machado e Duarte Belo.




Hoje subutilizada — apesar de sua importância para os esportes náuticos e da inegável melhora de seu uso após a concessão para a empresa BR Marinas —, a enorme marina vem recebendo ideias de novos projetos para sua revitalização, algo esperado após a sua utilização como local de competição durante os Jogos Rio 2016.



A REGIÃO NOS DIAS DE HOJE



A região, atualmente, em quase nada se assemelha à foto de 1908, com a qual começamos este artigo, como podemos ver nesta imagem final, capturada no Google Maps, em 3D. O Palácio Monroe, demolido em 1976, não reina mais na paisagem, agora dominada por edifícios comerciais e residenciais de várias épocas e estilos, enfileirados em um paredão sequencial na Avenida Augusto Severo.

Foram muitas as transformações sofridas pela nossa cidade ao longo dos séculos — sobretudo durante o século passado —, mas poucas regiões mudaram tanto quanto a antiga Praia de Santa Luzia. Só que a Glória é um bairro que vai além disso, tanto geograficamente, como no que se refere às suas histórias muito particulares.

Da próxima vez que falarmos sobre o bairro, vamos dar atenção especial ao seu outro extremo, que hoje sofre com o abandono causado pelo fechamento do Hotel Glória — e de seu teatro, que tanta falta faz aos moradores da região — e pela degradação urbana que não é exclusividade apenas daquelas bandas; é um mal que afeta a nossa cidade inteira. Mas isso é papo para outro dia.


*Texto de Daniel Sampaio.
**Colaboração e revisão de Egle Silva e João Freire.



REFERÊNCIAS FOTOGRÁFICAS:

Imagem 1: Panorama do centro do Rio de Janeiro, ao fundo o Palácio Monroe, a Praia de Santa Luzia e o Morro do Castelo (1908). Foto: Marc Ferrez. Coleção GIlberto Ferrez. Acervo: IMS.
Imagem 2: Inauguração do Palácio Monroe (1906). Foto: Alberto de Sampaio. Acervo: Sopef.
Imagem 3: Morro do Castelo (1906). Foto: Alberto de Sampaio. Acervo: Sopef.Imagem 4: Demolição do Morro do Castelo (1922). Foto: Augusto Malta. Coleção GIlberto Ferrez. Acervo: IMS.
Imagem 5: Inauguração da Praça Paris (cartão postal/1926). Autoria e acervo desconhecidos (favor colaborar).
Imagem 6: Prefeitura do Districto Federal; AGACHE, A. Cidade do Rio de Janeiro: Extensão- Remodelação-Embellezamento. Paris: Foyer Brésilien, 1930.
Imagem 7: Aterro do Flamengo (196?). Autoria desconhecida. Acervo: AGCRJ.
Imagem 8: Fotografia da arquiteta-paisagista e urbanista Lota de Macedo Soares. Ano desconhecido.
Imagem 9: Esboço do projeto para o MNMSGM. Marcos Konder Netto e Hélio Ribas Marinho. Acervo desconhecido.
Imagem 10: Inauguração do MNMSGM (1960). Autoria e acervo desconhecidos (favor colaborar).
Imagem 11: Projeto da arquiteta Elizabeth de Portzamparc para a Marina da Glória.
Imagem 12: Região da Glória/Aterro. Google Maps 3D.

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